Eu Dancei na Medieval

 

     Era o fim dos anos 70. A noite na cidade era movimentada. O que se escutava era a batida das músicas de Donna Summer, Gloria Gaynor, Village People e tantos outros que a crítica dizia ser “música sem valor nenhum. Bate-estaca de discoteca”. Sonia Braga dançava em Dancin Days. E nas pistas das discotecas passava-se a noite toda. De segunda a segunda. Nada de só funcionar nos finais de semana. Não tinha um dia certo. Todos os dias eram feitos para dançar. Na Papagaio`s, que ficava na Faria Lima, no Banana Power, na São Gabriel, ou no Medieval, na Rua Augusta. Mas esta última não era para qualquer público. Era um endereço para os “entendidos”. Era essa a palavra usada na época antes de “gay” ser adotada por todo mundo.
     Para se frequentar uma pista dessas discotecas – qualquer uma delas – era necessário estar na moda. Não se falava “fashion” nem se pensava em “clubber”. A moda era vestir um dos camisões da T.Macchione – enomes, que podiam chegar até o joelho. Uma camiseta regata por baixa – melhor ainda se fosse da Animal, a loja criada para quem ia à Papagaio’s, que tinha um enorme “A” estampado. Calça da Fiorucci, a marca italiana que Glorinha Kalil trouxe para o Brasil, mas só tinha loja num shopping de Osasco, ou uma de veludo da New Man, que vendia numa lojinha da Augusta, ao lado da Hi-Fi, onde se encontravam todos os melhores LPs, os discos de vinil, da disco music. Nos pés, sandálias de plásticos cor de Coca-Cola, trazidas dos Estados Unidos por algum amigo ou contrabandista. Sempre usadas com meias brancas. O corte de cabelo era uma risca no meio da cabeça, o cabelo cheio e barba ou só bigode. Os pelos do rosto e do corpo eram charmosos. Nem pensar em depilação. Correntes e aneis da Pratinha, na Augusta, completavam o visual.
     Numa daquelas noites, quem frequentava as discotecas de São Paulo estava mobilizado pela presença do Village People na cidade. Era o show que ninguém poderia perder. Não lembro mais onde o grupo americano se apresentou. Também isso não teve nenhuma importância. Gloria Gaynor passou pela cidade antes e cantou I Will Survive ao vivo na Banana Power para algumas dezenas de garotos e garotas. As discos não ficavam intransitáveis. Havia espaço para todos ensaiarem passos de dança grandiosos. O ponto alto da passagem dos rapazes do Village People por São Paulo não foi o show, mas a presença deles na Medieval, depois do show.
     A Medieval era uma porta na Rua Augusta, quase esquina com a Paulista, sem luminoso ou placa de identificação. Mas todo mundo sabia que era lá. Não se formavam filas na porta, mas todas as noites a boate – ninguém chamava a Medieval de discoteca – ficava cheia de gente. Para entrar tinha que ser rápido. A maneira mais segura para não ser visto pore ninguém que pudesse estar subindo a Augusta de carro naquele momento era olhar para os lados e entrar como um jato na boate. Se fosse conhecido do porteiro era mais rápido ainda. Bastava ele te ver na calçada e abria a porta, que era cruzada em um segundo. E descobria-se um mundo fascinante. A Medieval era enorme. Dois salões ligados por um corredor. O salão do fundo era a pista mais animada de São Paulo. A melhor música e as pessoas mais bonitas da cidade. Muita gente, inclusive, que jamais se imaginaria frequentar uma casa noturna para um público tão específico.
     Foi naquela noite, em que o Village People foi ao Medieval que São Paulo ficou com jeito de cidade cosmopolita. Ninguém se importava com a presença dos cinco bailarinos/cantores naquele espaço. Todos sabiam quem eram eles, já que continuavam com as mesmas roupas que usavam nos shows. Só o índio estava sem o imenso cocar que usava nos palcos. Não sei se por causa da calça verde de pára-quedista que eu usava aquela noite, ao invés da calça de listras brancas e azuis da Fiorucci, ou pela energia da juventude, dancei a noite inteira com Glenn Hughes, que usava a roupa de couro de motoqueiro e tinha um bigode enorme. O discotecário, que ainda não era conhecido por DJ, tocou todas as músicas do grupo, intercalando com Donna Summer. Nem eu nem Glenn deixamos a pista um minuto. Nelson, o maitre da Medieval trazia os copos cheios de vodca e Coca-Cola, uma mistura comum naqueles tempos que animava ainda mais o movimento dos corpos ao som de Go West e Macho Man.
     A dança foi o que nos aproximou naquela noite. Dançar com Glenn Hughes tinha um significado emblemático. Era sinal que São Paulo era como Nova York, Londres ou Paris. Aquele personagem máximo da era disco se divertia sem se preocupar com nada. Não trocamos mais do que algumas palavras. Nem precisava. O que importava era mesmo dançar e se divertir muito.
     Anos depois, cada vez que eu ouvia a regravação de Go West feita pelos ingleses do Pet Shop Boys, lembrava da noite em que eu dancei com o motoqueiro do Village People no Medieval, na Rua Augusta, em São Paulo. E na época em que as celebridades – que não eram chamadas de celebridades – podiam ir em qualquer lugar sem preocupação nenhuma nem ficavam trancadas em salinhas vips de boates. Mesmo porque, naqueles anos, não existiam salas vips em nenhuma discoteca de São Paulo. E eu, por ter dançado a noite inteira com um dos Village People, passei a ser tratado na Medieval como very important people.