O mundo, sob o olhar de Clóvis Zanetti

 

                                                   

Carlos Hee

 

Eu conheci Clóvis Zanetti em Paris, na casa de uma amiga comum, a jornalista brasileira radicada na capital francesa Sonia de Barros. Eu fui a Paris naquele novembro de 2005 rapidamente por motivos profissionais. Sonia fez um delicioso jantar para me receber em seu apartamento perto da Maison de Radio France numa noite gelada. Me recebeu com champanhe e sua simpatia carioca e seus requintes franceses. E para completar a noite deliciosa que me proporcionava, convidou seu amigo Clóvis para nos fazer companhia e conversarmos sobre literatura. O ponto em comum entre nós três.
A empatia foi imediata e passamos horas conversando sobre os mais variados assuntos – como Sonia gosta de fazer – além de livros. Na saída, Clóvis me deu uma carona até o hotel onde eu estava hospedado, não sem antes andarmos pelas ruas em volta do apartamento de Sonia a procura de seu carro. Quando estávamos quase desistindo e tentando pegar um táxi – e quem conhece Paris sabe que isso não é das tarefas mais fáceis – encontramos o carro de Clóvis estacionado exatamente no mesmo lugar em que ele o havia deixado horas antes.
 No percurso do 16e Arrondissement até a Rue de Castiglione, Clóvis me falou sobre seu livro e conversamos sobre os problemas de edição de novos autores no Brasil. Nos despedimos em frente ao meu hotel e ele ficou de me enviar os originais por e-mail na semana seguinte, como realmente o fez.
Ao ler os 19 contos de Sopa, Consomê, Minestrone vi que tinha diante de mim os originais de uma obra cheia de informações fascinantes sobre uma época, ou melhor, sobre várias épocas, e, principalmente, sobre a questão da própria existência humana.
Em seus contos, quase crônicas, Clóvis consegue levar o leitor a uma viagem pelos mais diversos cenários internacionais. Não como um guia de turismo, já que não se atém à simples descrição de cidades como Paris, Nova York, Chicago, Pompéia – esta num supreendente exercício de science ficton – ou Vézelay, Rio de Janeiro e São Paulo. A narrativa de Clóvis está centrada nas pessoas que vivem nessas cidades. Que podem estar em qualquer uma delas – como ele mesmo – sendo cidadãos de um mundo globalizado em que as raízes se encontram nas redações escolares feitas em colégios da infância, não nos centros em que escolheram viver. Nestas cidades, seus personagens interagem e mostram suas fraquezas e virutdes, sua maneira de viver e sobreviver num mundo que se transforma diariamente.
Mas o que mais impessiona nos contos de Clóvis é seu olhar sobre a modernidade, sobre as relações humanas, sobre uma legião de homens e mulheres que se jogaram no mundo atrás de diferentes ideais e encontraram até mesmo em pequenas situações, objetos, fotos, numa chuva que cai sobre Paris ou na erupção do Vesúvio, a dramaticidade e/ou a comicidade de momentos que poderiam passar desapercebidos para um observador menos atento, o que não é o caso de Clóvis. Uma conversa sobre sopas serve de pretexto para retratar a vida de brasileiros em Paris. Lembranças de senhoras senis são pano de fundo para discutir a morte. E a presença de Jeanne Moreau lhe dá a oportunidade de discorrer sobre o aterrorizante início da epidemia da Aids de uma forma comovente, sem deixar cair na pieguice sentimentalóide, mas usando o humor de seu personagem que agoniza para fazer um dos retratos mais impressionantes e fiéis que já fizeram sobre a doença nos anos 80.
Ler os contos/crônicas deste primeiro livro de Clóvis Zanetti é um prazer e uma aula sobre as relações humanas. Do primeiro ao último. De um só fôlego.