Mineshaft  parte 01

                                                                                    

     Mineshaft. Esse era o nome, o lugar. Ir ao Mineshaft era estar no lugar certo, na hora certa, com os caras certos. Pelo menos era isso o que pensávamos e o que todos diziam.
     Foi no Mineshaft que eu encontrei o Luiz. Fazia tempo que a gente não se encontrava. Talvez uns dois anos. Tínhamos sido uma espécie de namorados. Nosso primeiro encontro foi ao acaso. Eu estava conversando com Samantha, um travesti dos mais famosos nos anos 70. Ela era muito fina, chique mesmo. Mas quando abria a boca e começava a falar, toda aquela elegância - ela sempre vestia Chanel e Saint Laurent - caía por água abaixo. Era um verdadeiro esgoto falante.
     Enquanto eu ouvia as histórias de Samantha, chegou aquele cara baixinho, de bigode, jeans e camiseta branca. Básico. Olhou para mim, meio sem graça, e foi dizendo:
     - Seu namorado mandou dizer que já foi embora.
     Não foi surpresa, na verdade, Adalberto - esse era o meu namorado naquele dia - passara a noite conversando com um outro rapaz. E eu havia visto a hora em que os dois saíram juntos.
     - Eu já tinha percebido - eu disse, olhando aquele baixinho que eu já vira várias vezes e nunca tinha tido a coragem de me aproximar -. Tudo bem, se ele foi embora com aquele carinha, por que eu tenho de ir para casa sozinho? Quer ir embora comigo? Te dou uma carona.
     Ele não era bonito. Era sensual. Um verdadeiro animal cheio de instinto. Seu olhar dizia “me fode” o tempo todo.
     - É pra já. Vamos?
     - Meu carro está aqui em frente. Onde você mora?
     - Na Ministro Rocha Azevedo.

     Lotte Lenya foi mulher do compositor Kurt Weill. Era a melhor intérprete das canções de Bertold Brecht e de seu marido. A voz da alemã era a trilha sonora do meu carro naquele ano. Só ouvia a fita que gravara de seu álbum duplo.
     - Não acredito. Você curte Lotte Lenya?
     Ele tinha ficado surpreso com o som. Eu fiz de conta que me surpreendera com a pergunta:
     - Você conhece Lotte Lenya? Só um amigo meu já ouviu falar dessa mulher.
     - Eu sei estas canções de cor. Estou ensaiando um espetáculo exatamente com essas músicas...
     É verdade. Não disse quem era Luiz.
     Luiz era um ator que estava começando a brilhar nos palcos de São Paulo. Um diretor, amigo meu, que também começava a ensaiar seus primeiros espetáculos, me dissera uma noite que Luiz seria um dos grandes atores do teatro brasileiro. O que foi confirmado por um outro diretor, este já consagrado, que também estava na mesa, naquela noite.
     Além de ator, ele era um dos fundadores de um grupo alternativo e diretor das peças que eles tinham no repertório.
     Ou seja, eu estava sentado no meu carro com um ator. E tentava mostrar para ele que eu também sabia alguns truques da arte de representar.
     Enquanto tocava Surabaya Johnny, eu caí na risada e Luiz, de verdade, se surpreendeu:
     - Disse alguma bobagem?
     - Não, Luiz, nenhuma. E que estar aqui com você parece que não é verdade. Sempre senti tesão quando te via... e agora estamos aqui, conversando sobre Brecht e Weill.
     - Vamos continuar essa conversa lá em casa?
     - Com certeza. Acho que a noite pode ser mais divertida ainda...
     E foi nessa noite que eu aprendi que o sexo anal pode ser uma das relações mais prazerosas para o homem. O importante é quem te come saber exatamente como fazê-lo. E Luiz tinha a maestria do ato. Conhecia cada milímetro anal do outro. Cada feixe de nervos, músculos. Sua noção de tempo era exata; quanto gastaria em carícias, em palavras, em toques. Tudo para que o relaxamento fosse perfeito.
     E o mais impressionante era que dava certo. Quando ele já estava dentro e começava a movimentar-se, era puro delírio.
     Naquela noite, foi a primeira vez que eu dei para ele. E, o mais estranho, a última também. Ele me penetrara como se fosse uma aula prática. Estava a me ensinar como eu deveria me comportar daquela noite em diante. Parecia ter sido planejado, exatamente como faria um professor experiente.
     Luiz também foi o responsável por outras apresentações. Foi com ele que eu conheci as drogas sexuais e a encenação sado-masoquista. Ele tinha extremo prazer em me mostrar como era um comportamento fora do convencional. Sua expressão chegava a ser de uma sedução diabólica. Irresistível.

     Depois de dois anos sem o ver e sem notícias, encontrei-o no Mineshaft. Eu acabara de chegar em Nova York. Durante o dia, percorri algumas lojas atrás de uma bota de operário, que era a moda do momento. Achei depois de muito andar. À noite, vesti uma jaqueta de nylon de aviador, um jeans e cai na noite.