A saída da sessão do Espaço Unibanco de Cinema deixava aquela calçada abarrotada de gente. A banca de livros velhos dificultava ainda mais a passagem. Não sei o por quê, mas comecei a subir a Rua Augusta em direção à Avenida Paulista. Na verdade, tinha de ter tomado o sentido contrário. Quando cheguei à esquina, aquele bar que eu nunca havia freqüentado, só entrara ali para comprar cigarros, acho que uma vez ou duas, estava apinhado de gente. No balcão e nas mesas da calçada. Ouvi meu nome sendo gritado. Mas podia ser que não fosse comigo, pois não sou o único a se chamar Guilherme.
No entanto, olhei para a direção de onde vinha aquela voz com meu nome desenhado. Uma voz familiar. Não poderia ser a voz de Adalberto. Afinal, ele havia morrido já fazia algum tempo. Anos, talvez.
Outra vez ouvi meu nome, mas não conseguia distinguir, no meio de tanta gente, quem chamava por algum Guilherme, que não deveria ser eu. Na terceira vez que gritaram meu nome, tive a quase certeza que era a voz de Adalberto. Imaginação solta demais.
Sem mais nem menos, por entre aquelas mesas da calçada coalhada, Adalberto apareceu com seu sorriso único e seus olhos brilhantes, que se podiam ver através dos óculos de aro de ouro redondo e lentes límpidas. Veio em minha direção, de braços abertos, com uma expressão de extrema felicidade. Ao contrário da minha, que era de espanto e incredulidade.
Não falou nenhuma palavra. Apenas me deu um beijo no rosto e um abraço apertado.
Refeito do susto inicial, quem falou fui eu:
“Não imaginava te encontrar aqui”, disse, sem acreditar muito que estava conversando com um morto. “Não nos vemos há tanto tempo.”
“Estava com saudade e queria te ver, sabia que você ia estar por aqui hoje”, Adalberto falou com a certeza de quem sabe exatamente que esse encontro seria inevitável e a coisa mais natural do mundo. Ou sobrenatural.
Em menos de um segundo, numa fração de tempo, Marquinhos chegou ao nosso lado com aquele seu jeito de eterno verão, com a mesma barba por fazer, a camiseta regata e a pela bronzeada.
“Guilherme! Delícia te encontrar...”, Marquinhos gritou me apertando tão forte que me dificultava a respiração. O que sempre acontecia, já que ele era bem maior que eu e muito mais forte.
“Hoje é o dia dos encontros. Primeiro o Adalberto, agora, você...”
“Você viu o Adalberto?”, ele me perguntou com um dúvida no rosto.
“Olha ele aqui....”, não terminei a frase, pois quando me virei, Adalberto parecia ter se evaporado. Não estava em lugar nenhum. “Ele estava aqui agora mesmo, deve ter entrado no bar.”
“Eu encontro o Adalberto de vez em quando, mas ele sempre some assim. Sem mais nem menos. Ums segundo e ele desaparece. Num estalar de dedos”.
Marquinhos era uma grande recordação do meu longínquo passado. Estava lá, naquele prateleira dos primeiro amores. Nas descobertas e irresponsabilidade da juventude. Continuava belíssimo e com o mesmo olhar maroto de moleque que acabou ou está prestes a fazer alguma coisa que merece uma repreensão, mas que nos deixa transbordando de alegria.
“Você vê como as pessoas são maldosas”. - Comecei a comentar com ele. - “Faz mais ou menos uns dois anos, encontrei com o Homero, que me disse que você também tinha morrido”.
Isso acontecera uma noite, numa boate, quando sempre que se encontrava algum velho amigo, esse trazia aquela notícia macabra. Mais um tinha se ido. E daí seguia a série de comentários: estava seco, só pele e osso. Alguns diziam que tudo aconteceu em menos de um mês. Caiu doente e morreu. Ou ainda, os que pareciam se regozijar com o drama do outro: “uma agonia, precisava ver. Também, dava como uma louca.”
Marquinhos ouviu o que eu havia dito e, seu sorriso de criança se transformou numa gargalhada.
“Que bom te encontrar... estava na hora mesmo. Olha o Guilherme aqui”.
Lá estavam meus dois amigos, em plena Rua Augusta, no meio de uma multidão sem rosto, numa noite quente. Muito quente. E eu comecei a sentir minha roupa ficar completamente molhada de suor. Não era para estar transpirando tanto assim...
O que eu estava fazendo ali, encharcado de suor, sentindo a pele ficar gelada, exatamente ao contrário do resto do corpo, que ardia com uma temperatura muito acima daquela noite.
E além do mais, conversando com dois amigos mortos?